Meus Livros em Cuba

ANTES TARDE QUE MAIS TARDE AINDA* - Paulo Nicolini

A estadia em Cuba ocorreu durante a segunda quinzena de Janeiro, em 2.011. Eu, juntamente com outras duas professoras – Marose e Ana - fomos para a “ilha de Fidel” para um Congresso de Educação Latinoamericano. Juntamente conosco, levei 3 livros escritos pelo meu primo José Donizetti Nicolini Gonçales com o objetivo de espalhá-los pelo país caribenho.

Entretanto, não os fui distribuindo nos primeiros lugares em que cheguei. Queria deixá-los com pessoas que de alguma forma se identificassem com a gente e, assim, pudessem lê-los e espalhar suas palavras. Dessa maneira, resolvi deixar cada um dos três livros em cada uma das três cidades pelas quais passamos durantes estes quinze dias.

Esta foto foi tirada no Hotel Villa Tortuga, na cidade turística de Varadero. Ficamos nesta cidade menos de 24 horas, pois chegamos ao final da tarde de um dia e fomos embora antes do almoço do dia seguinte. Ela é muito conhecida por ser local freqüentado por muitos turistas e por conter apenas a praia (que por sinal é belíssima, com uma água verde-clara de encantar qualquer caipira, como eu) e resorts. Por sinal, este foi o último hotel pelo qual passamos, já que em todos os anteriores (uns 10 – sem brincadeira) a capacidade estava lotada.

Por cerca de 100 reais (60 CUCs, a moeda cubana para estrangeiros – há outra moeda legal (CUP) no país de circulação exclusiva entre os cubanos, valendo 25 vezes menos que o CUC), tínhamos direito a open bar de bebida, comida, piscina e shows baseados em estereótipos cubanos de “Guantanamera”e salsa.

Como procurávamos não o senso comum, mas a convivência com as pessoas de lá, achamos o local pouco interessante por vender uma imagem de Cuba que, ao final, é o mais do mesmo. Em todo caso, pela rápida estadia, era o local para deixar o livro “Com você” com a funcionária Ordália, que, inclusive, disse que era fã de literatura brasileira e, após lê-lo, deixaria num espaço comum de livros e revistas que o hotel disponibilizava para os turistas.

 

 

Balbina!!! Esta senhorinha na foto já era conhecida de nome antes mesmo de entrarmos no avião para Cuba. Através de uma amiga que já havia viajado para lá um ano antes da gente, a Helô, nos informamos sobre locais e cidades que poderíamos visitar na ilha. Uma das cidades, pelo seu aspecto histórico e cultural, era a cidade de Trinidad, no centro-leste de Cuba.

Esta cidade foi fundada ainda no século XVI, logo no início da colonização espanhola. É considerada um patrimônio da humanidade pela Unesco (uma espécie de Ouro Preto versão socialista)e, por isso, carros não podem circular no centro da cidade e as ruas são estreitas, com casas coladas e arquitetura colonial. Depois de andarmos com um carro alugado (e era um Hyundai - os carros antigos, lembrança natural das imagens que a TV circula, são propriedade dos cubanos; existem agências de aluguel de “carros modernos”) quase um dia inteiro, errar o caminho e andar mais do que devíamos (embora quando se não conhece nenhum lugar, toda estrada é nova!), no começo da noite chegamos ao local desejado.

Entretanto, não sabíamos onde ficar. Foi então que lembramos o conselho da Helô e como a Marose tinha anotado o endereço aqui no Brasil, achamos, mesmo numa rua estranha, de uma cidade estranha, de um país estranho a generosidade gratuita da Balbina. Aliás, me permita ratificar minha teoria: o melhor de Cuba são os cubanos.

A Balbina é a típica “vozinha” que todo mundo gostaria de ter. Ela possuía uma pousada e já havia ajudado minha amiga um ano antes e também nos ajudou. Infelizmente, não ficamos lá, mas ela prontamente ligou para um ex-aluno (sim, ela foi professora!), agora já com seus 40 anos, também dono de pousada, para nos abrigar durante 3 dias na cidade que proporcionou o verdadeiro espírito da cultura e do povo cubanos, seja em pratos típicos, conversas ou danças.

Por isso, antes de irmos e como forma de agradecimento entreguei as memórias de “Guigui” para Balbina, que ficou extremamente agradecida e emocionada com o presente, prometendo disponibilizá-lo para os próximos moradores, muitos dos quais, brasileiros.

 

Por último, mas não menos importante, a casa do casal que nos abrigou durante quase toda viagem. Mileydi e Luis são casados, possuem dois filhos, Víctor e Luís Henrique e alugam parte da sua casa em Havana para turistas, prática comum em Cuba, pois é uma forma de renda que as famílias tem de recorrer. Porém, não pensem que eles fazem isso escondido: são regularizados, possuem um controle e prestam conta ao Estado sobre quem e por quanto tempo abrigam turistas. Então, o governo fornece um dinheiro para que eles possam hospedá-los.

Resolvemos ficar em casa e não em hotel (embora tenhamos ficado os 2 primeiros dias em um) exatamente para ter um contato maior com os cubanos, um dos objetivos da nossa viagem. Pudemos, assim, ver melhor como o regime de Fidel Castro afeta diretamente a vida cotidiana dos cubanos, para o bem e para o mal: se por um lado, educação, saúde e segurança públicas estão anos-luz à frente do Brasil, o temor vindo da vigilância constante e a falta das liberdades individuais realmente castram as possibilidades do exercício de uma cidadania plena. Mais complexo que um jogo de certo e errado, compreender as contradições do regime e compará-las às contradições do nosso modo de vida no Brasil, estando dentro de Cuba, foi uma experiência riquíssima, tanto no sentido afetivo, quanto intelectual. Muito disto devemos ao casal Mileydi e Luis.

Com certeza, o último livro-presente-lembrança teria que ser dado a eles. O título “Eu e você” combinou com a nossa viagem-experiência para Cuba, a nossa relação com a gente mesmo, a nossa relação com pessoas dos diversos países latinos, nossa relação com a educação. As relações que um livro ou uma viagem podem despertar são inúmeras e as palavras que vêm de ambos têm a função de afetar as pessoas e, de alguma forma, poder modificá-las.

 

*Este é o lema do Bloco Casarão, do carnaval de São Luiz do Paraitinga, do qual meu irmão Cláudio Nicolini faz parte e eu procuro frequentar quando posso. Como estas lembranças e explicações foram feitas em 03/02/2012, ou seja, mais de um ano depois da viagem, penso que ela é benvinda.